Administração do envelhecimento: por que eu não trabalho com procedimento avulso
A pele não envelhece em eventos isolados, então não faz sentido cuidar dela em eventos isolados. Explico como eu penso o cuidado ao longo do tempo, e por que às vezes a melhor indicação é não fazer nada agora.
Dra. Ariadne Martins
Biomédica Esteta · CRBM-5 nº 6418
Quando me perguntam o que eu faço, eu costumo responder: administração do envelhecimento.
Não é rejuvenescimento. Ninguém volta no tempo, e quem promete isso está vendendo algo que não existe. É administração mesmo, no sentido de acompanhar de perto um processo natural, contínuo e inevitável, que responde muito bem quando é cuidado com constância.
O problema do procedimento avulso
O modelo mais comum no mercado é o do procedimento isolado. A paciente chega incomodada com alguma coisa específica, faz aquele procedimento, vai embora, e volta meses ou anos depois incomodada com outra coisa.
Funciona? Às vezes. Mas ele tem três problemas.
Primeiro: trata sintoma, não conjunto. Alguém pode chegar querendo preencher os lábios quando a queixa real, olhando o rosto inteiro, é outra.
Segundo: ignora o tempo. Alguns procedimentos trabalham por estímulo, o que significa que o corpo leva semanas ou meses para responder. Quem faz de forma avulsa raramente vê o processo completo, porque não há acompanhamento.
Terceiro: favorece o excesso. Quando cada visita é uma decisão isolada, sem plano, a tendência natural é ir acumulando procedimentos. É assim que se chega em resultados artificiais, não por um procedimento em particular, mas pela soma de decisões desconectadas.
O que muda quando existe um plano
Trabalhar com plano significa que na primeira avaliação a gente olha o seu rosto inteiro, o seu histórico e a sua rotina, e desenha um caminho para os próximos meses.
Isso muda coisas bem concretas:
- Existe ordem. Alguns procedimentos fazem mais sentido antes de outros.
- Existe intervalo. O tempo entre uma etapa e outra é parte do tratamento, não uma pausa.
- Existe sazonalidade. O CO2 fracionado, por exemplo, é concentrado no inverno. Isso precisa entrar no calendário.
- Existe reavaliação. A cada etapa a gente olha o que aconteceu e ajusta.
- E existe a possibilidade de não fazer. Se na reavaliação a sua pele não estiver pedindo nada, a indicação é esperar.
Firmeza e textura não são a mesma queixa
Um exemplo prático de por que o conjunto importa.
Uma pele pode estar firme e com a textura irregular. Pode estar lisa e sem sustentação. São queixas diferentes, tratadas por caminhos diferentes, e é comum a paciente chegar pedindo um procedimento que resolve a queixa que ela não tem.
O endolaser trabalha profundidade e estímulo de colágeno. O CO2 fracionado trabalha a qualidade da superfície. Muita gente acha que precisa escolher entre os dois. Na prática, quando existe indicação para ambos, o que faz sentido é planejar os dois ao longo do ano, em ordem e com intervalo.
Essa é exatamente a conversa que eu não consigo ter em um atendimento avulso de trinta minutos.
Cuidar antes de precisar
A parte que eu mais gosto desse jeito de trabalhar é que ele abre espaço para prevenção.
Quem começa a cuidar antes de estar incomodada trabalha com estímulos mais leves, espaçados, com menos intervenção. Quem só procura ajuda quando a queixa já está instalada tem um caminho mais longo pela frente.
Não existe idade certa para começar. Existe avaliação.
Uma paciente por vez
Nada disso funciona no ritmo de clínica em que eu trabalhei durante anos, com agenda apertada e paciente entrando enquanto a outra sai.
Por isso eu atendo uma paciente por vez, com tempo de conversa. A avaliação não é uma formalidade antes do procedimento, ela é o procedimento mais importante que eu faço.
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